O Conhecimento – Parte 1: Ensaio Sobre a Subjetividade

1 OBJETIVO

O objetivo deste artigo, em geral, consiste em demonstrar e exemplificar como o processo de cognição é realizado, e como o conhecimento é formado e constituído.

Para evitar um artigo muito extenso, este tema será dividido em duas partes, sendo esta primeira destinada a um elemento preliminar: a subjetividade.

Leitura sugerida: O Grande Prelúdio. Não lê-la afetará a compreensão deste artigo.

2 INTRODUÇÃO

É natural ao homem se perguntar sobre o que o conhecimento é composto, posto que dele necessita para subsistir, para se planejar, para se orientar ao decorrer de sua vida, para se desenvolver pessoal e profissionalmente, embora, infelizmente, tais questionamentos sejam raros — e até mesmo culturalmente evitados.

Sobretudo, é fato irremediável que ser humano algum pode julgar-se conhecedor de assunto qualquer ou sob controle de sua vida se pouco ou nada entender aquilo que acredita conhecer.

Muitos podem argumentar que as experiências e o sentimento de estar certo são um barômetro para se manter no caminho do aprendizado, ou até mesmo para se darem ao luxo de permitirem-se algum grau de argumentação, motivados por algum sentimento de certeza. Contudo, inevitavelmente essas mesmas pessoas sentir-se-ão inseguras ao promoverem aquilo que de fato acreditam ser verdadeira.

– “Ora, como posso ter certeza daquilo contido em minha mente?”

– “O conhecimento é subjetivo? Se sim, qual é o grau de certeza quanto à subjetividade que devo possuir para enfim começar a advogar algo que acredito ser verdadeiro?”

– “É necessário possuir alguma graduação para que eu receba alguma credibilidade? Se sim, que processo terei passado que me tornará mais certo que os demais seres humanos?”

As perguntas acima elencadas costumam prender as pessoas em geral em uma espiral de incertezas que não cessam mesmo ao atingirem sucesso acadêmico. Não à toa, costumam propositalmente evitar essas e outras perguntas de modo a não serem confrontadas com a necessidade de respondê-las. No entanto, a responsabilidade por responde-las é patente, visto que o homem precisa do conhecimento, conforme supracitado, para praticamente qualquer empreendimento em sua vida.

Problemas cotidianos à parte, a necessidade pelo conhecimento transcende qualquer nuance de pragmatismo: é uma necessidade fundamental que todo indivíduo, seja qual for, é confrontado, posto que carece de instintos e estrutura física suficientes à subsistência.

Animais, por exemplo, possuem eficientes mecanismos biológicos como asas, garras, peçonha et caetera que os ajudam em suas atividades mais básicas; são compelidos por fatores externos a si a reagirem de uma determinada forma, mas ainda sim são relativamente eficazes naquilo que fazem — a cadeia alimentar é um exemplo; seleção natural, principalmente.

O homem, por outro lado, músculos à parte, precisa do produto de sua cognição para criar as condições suficientes à sua subsistência. Afinal, que mais o restaria?

Todavia, mesmo assim, o homem nasce tabula rasa [1] — isto é, sem conhecimento algum em sua mente. Desse modo, cabe a ele adquiri-lo; mas, antes, deve descobrir o método correto para fazê-lo.

Portanto, a própria condição de sobrevivência do homem é algo que ele carece a princípio; é imperativo, portanto, conhecer e, mais ainda, saber como conhecer.

3 SUBJETIVIDADE

De modo a discutir a tessitura do conhecimento é necessário antes apresentar os elementos preliminares à sua compreensão: a própria realidade per se. Todavia, dado que há um artigo destinado a isso [clique aqui para visualizá-lo] — pelo menos ao nível de compreensão pertinente à leitura deste artigo em particular —, aqui será tratada especificamente a subjetividade, posto que o esclarecimento desta é necessário ao propósito ao conjunto de artigos que este se insere.

O vocábulo “subjetivo”, segundo o dicionário online[2], exprime os seguintes significados pertinentes à análise:

1. “Que é próprio do sujeito ou a ele relativo”;
2. “Que pertence ao sujeito enquanto ser consciente”;
3. “Que é do domínio da consciência.”

Etimologicamente, do latim, “subiectivus”, significa “do sujeito”. [3]

As definições dessa palavra muito utilizada no dia a dia assumem dois elementos comuns: um sujeito — isto é, um indivíduo em particular — e um evento a ele subordinado. Posto isso, eles serão analisados melhor conforme segue:

A título de exemplo, o vento é desencadeado pela interação entre partículas de ar frio e ar quente [5], que originam as chamadas massas de ar (frente fria é um exemplo) que, ao colidirem com as folhas de uma árvore, as balançam. Tem-se aqui um evento desencadeado por entidades, como a formação da massa de ar (efeito), causada por partículas de ar (sujeito), que origina outro evento ao interagir com outras entidades, o vento e folhas de árvore (sujeitos); e o balançar destas (efeito). Os eventos não podem existir isoladamente – a esta relação que engloba toda relação entre sujeito e evento é dado o nome “causalidade”, composta por uma causa que necessariamente desencadeia um efeito (a relação entre entidades, as partículas de ar de diferentes temperaturas por exemplo, cujo conjunto recebe o nome de causa, origina um efeito, que por sua vez são as folhas balançando na árvore).

Ademais, na categoria das entidades, o sujeito, é possível dividi-las em duas quanto à natureza da relação causal:

1. As entidades que por um efeito secundário, isto é, anterior a si, causam um novo efeito — exemplo: as folhas balançaram porque um evento anterior, a massa de ar em movimento, tornou isso possível; a formação da própria massa de ar, devido à alteração da temperatura e portanto da pressão ambientes; et caetera. A estas chamo de ações esporádicas;
2. As entidades que conscientemente se colocaram em um determinado curso de ação orientadas por um estímulo ou através do exercício de seu arbítrio. A estas chamo de ações autogeradas.

Diferente das ações esporádicas (ou acidentais, conforme proposto por Harry Binswanger [6]), as ações autogeradas presumem que o objeto seja capaz de se compelir a agir por si só – e isto só poderá ocorrer ao cumprimento de três condições [7]:

1. Algum mecanismo interno ao objeto à sua disposição;
2. A energia necessária à operação do objeto;
3. A presença de uma consciência.

A relação entre os três itens supracitados depende da assunção de uma consciência capaz de operar esse mecanismo interno sob a presença de um estoque energético que a propicie fazê-lo – esta relação fica ainda mais clara ao recordarmos da relação entre energia cinética e energia potencial. A ação autogerada, portanto, é uma característica das entidades conscientes: dos seres vivos. [8] [9] [10]

Enfim, ao considerar os elementos supracitados e suas implicações, torna-se imperioso voltar às definições de “subjetivo” de modo a compreender ao que elas aludem. Ver-se-á que as definições assumem uma entidade, uma consciência e um elemento consequencial à entidade consciente: que por sua vez apenas poderá ser uma ação autogerada.

Todavia, seria equivocado assumir que apenas a ação consciente é uma ação subjetiva, uma vez que uma entidade inanimada também poderá ser o sujeito de uma ação, à medida que outra entidade inanimada, consigo, consiga produzir algum efeito particular – ou que produza um efeito que, posteriormente, com alguma entidade venha a se relacionar.

Posto isso, a definição plausível para subjetivo seria a primeira a primeira: “que é próprio do sujeito ou a ele relativo”.

3 CONCLUSÃO

A objetividade detém primazia sobre a subjetividade, uma vez a os sujeitos são entidades contidas em um universo, e que produzem ação nesse mesmo universo; e de maneira análoga, toda ação é de causa subjetiva, mas de natureza objetiva. Portanto, a ação é predicado de todo o sujeito, e entende-se que qualquer fenômeno extrínseco ao sujeito não é ação, mas um movimento.

Não obstante, o emprego cotidiano de “subjetividade” visa aludir a duas definições:

1. À natureza da realidade – esta que, conforme demonstrada neste artigo e naquele referenciado ao início deste, não se sustenta;
2. À ação humana – esta que, uma vez sendo o produto de um sujeito consciente, é válida.

Ademais, para fins da cognição, cabe a esse ser vivo consciente a adequação de sua ação subjetiva às suas condições de existência, de modo a continuar existindo – algo que apenas poderá ser realizado através da cognição. Esta, embora seja uma ação subjetiva – ou seja, de causa subjetiva –, é de natureza objetiva, possuindo, portanto, um método correto de operar.

Adicionalmente, cabe aos seres humanos adequarem seus comportamentos às conformidades do ambiente interno e externo a si – o primeiro, ao fruto de sua introspecção, como o seu senso de autovalor e a validez de suas ideias, à conclusão extraída de seu raciocínio et caetera; o segundo, fruto de sua extrospecção, como o comportamento social, o comportamento ético et caetera.

As condições supracitadas nada mais são do que consequências diretas da subordinação do subjetivo ao objetivo – os elementos consequenciais às entidades conscientes DEVEM se conformar à realidade, uma vez que é nesta que está instanciada a sua natureza; embora a ação autogerada seja de causa subjetiva, sua natureza é objetiva – por ser um corolário da própria relação de primazia da existência sobre a consciência em grau axiomático, e dado o simples fato que, para demonstrar a subjetividade neste artigo, foram relacionados princípios e elementos objetivos.

Portanto, para a análise de qualquer elemento fruto da subjetividade, como os sentimentos, as emoções, a espiritualidade, a cultura, a religião, a motivação, os objetivos, o propósito, a felicidade, deve-se entender primeiro os princípios objetivos que os fundamentam.

Sobretudo, é possível concluir (e este é o propósito deste artigo) que os elementos subjetivos são investigáveis e fundamentáveis; são passíveis de análise epistemológica (são validos ou inválidos) e são passíveis de análise ética (são bons ou maus).

Afinal, o próprio conhecimento é fruto do exercício da subjetividade, e nem por isso este perde a sua validez ou demonstrabilidade universal. A tentativa de implicar a primazia da subjetividade sobre a objetividade – da consciência sobre a natureza – não é apenas um atentado contra a realidade, mas contra a natureza e conhecimento humanos, aquela dependente deste.

Matteo Guimarães

REFERÊNCIAS

[1] BINSWANGER, H. How We Know. Nova Iorque: TOF Publications, 2014. p. 489.

[2] Disponível em: https://goo.gl/pPaExr. Acesso em: 6 out. 2017.

[3] Disponível em: https://goo.gl/dQNZcs. Acesso em: 6 out. 2017.

[4] Há as chamadas “oração sem sujeito”, onde este não pode ser encontrado na estrutura frasal. Todavia, se for assumido um exemplo cotidiano para esse tipo de oração, como “choveu gotas d’água”, presume-se que foi alguma nuvem em particular que causou a chuva, posto que “chuva” é predicado contingente de toda nuvem — ora, que mais a produziria? Desse modo, mesmo que o sujeito não se encontre na oração, este existe.

[5]Cf. https://goo.gl/XzMqDL. Acesso em: 7 out. 2017.

[6] BINSWANGER, H. Biological Principles for Theleological Concepts. Nova Iorque: TOF Publications, 1990.

[7] Binswanger, em sua obra citada na última nota, apenas formalizou os dois primeiros itens elencados, embora explicitamente os tenha abordado assumindo a existência e uma consciência.

[8] Pode-se tentar argumentar que existem objetos conscientes, mas tal proposição seria tão absurda que sequer reservarei um espaço para refutá-la, a não ser que haja demanda.

[9] Perceba que os próprios argumentos teológicos pressupõem a existência de uma consciência, e é a partir desta que “Deus” é definido.

[10] As entidades não vivas, em razão de não poder gerar as próprias ações, são denominadas “entidades inanimadas”. A título de curiosidade, “animado”, “ânimo” e outras palavras que partilham do radical, vieram do latim, “animus”, que pode ser traduzido como “alma”. Razão a qual Aristóteles escreveu há mais de dois milênios uma série de livros que vieram a ser conhecidos atualmente como De Anima. Por meio desses, o Estagirita estudou ontologicamente a consciência.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s